Já chegaram a casa e se sentiram vazios?
Já chegaram a casa e sentiram a necessidade de procurar alguém?
Alguém que sabem que não vão encontrar porque não é suposto estar á vossa espera…

Cheguei agora a casa… estive no café com os amigos habituais. Umas conversas de ocasião foram preenchendo vagarosamente as horas que tardavam em passar. Mas não me queixo… sei que não era o único com essa sensação. Nas duas mesas de tampo vermelho escuro que unidas serviam de poiso ás cartas de costas também vermelhas jogava-se ao “sobe e desce”. Jogo de fácil aprendizagem mas que nunca me seduziu. Aliás, raro é o jogo de cartas que me seduz. Já fui amante da sueca, e não a recuso se tiver mesmo que ser. A bisca é um caso à parte…
Sempre gostei mais de me colocar na posição de observador e aprender a compreender as pessoas através dos seus gestos, das suas poses e reacções.
Perdi duas ou três horas nisso. Ali, embrenhado em conversas casuais, a deitar o olho à mesa onde as cartas se amontoam, a observar quem joga.
Bebi dois ou três finos traçados nesse período de tempo.

Não fumei… deixei de o fazer no dia 11 de Março deste ano depois de mais de sete anos a fumar. E tudo por causa duma aposta com uma das jogadoras das mesas de tampo vermelho escuro.
Sempre senti a necessidade de provar aos outros que consigo provar a mim próprio que os meus limites são impostos por mim somente. É uma das minhas necessidades, um dos meus defeitos. Nasceu numa conversa casual a aposta. Disse-lhe que estava disposto a deixar de fumar. Foi no dia 11 de Fevereiro sentados num café, cotovelos apoiados numa mesa de tampo preto. Ela em tom jocoso ripostou que eu não seria capaz de o fazer porque haviam sido abandonadas três beatas no cinzeiro em poucos minutos, e nenhuma tinha sido rejeitada por ela…
“-Não consegues deixar de um dia para o outro… isso não é assim. As pessoas precisam de apanhar um susto para deixar.”
Eu gosto de me provar a mim próprio, e faço questão que os outros saibam que a minha força de vontade é a minha guia…
“-Um mês… dá-me um mês. Vai uma aposta?”
“-Claro…
No dia 7 de Março estava sentado num café, cotovelos apoiados numa mesa de tampo preto, com a companhia dela e do irmão, que tal como eu estava munido do seu maço de tabaco de enrolar. Discutimos os sabores, a forma de enrolar o cigarro com os filtros “Venti” mais grossos ou com os de caixa verde mais finos… E eu disparei:
“-Pois é, mas na 6ª feira deixo de fumar…”
“-Ainda estás com essa? Achas mesmo que consegues? És muito crente…”
“-Sexta-feira falamos…”
E na 6ª feira, dia 11 de Março, fiz questão de provar a mim próprio que não perco uma aposta se esta depender da minha força de vontade. E especialmente, não perderia uma aposta com a jogadora da mesa de tampo vermelho escuro… Tenho uma necessidade premente de lhe mostrar que a força de vontade, o acreditar no resultado desejado faz mover o mundo.
Ela sabe porquê. E eu sei que se ela passar os olhos neste texto mata-me. Mas Demeter para os Gregos, Ceres para os Romanos foi uma deusa compreensiva…


E de repente já não estou tão vazio.

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