Agora vêm-nos com esta história dos «cartoons» sobre Maomé saídos num jornal dinamarquês. Ao princípio a coisa não teve qualquer importância: um «fait-divers» na vida da liberdade de imprensa num país democrático. Mas assim que o incidente foi crescendo e que os grandes exportadores de petróleo, com a Arábia Saudita à cabeça, começaram a exigir desculpas de Estado e a ameaçar com represálias ao comércio e às relações económicas e diplomáticas, as opiniões públicas assustaram-se, os governantes europeus meteram a viola da liberdade de imprensa ao saco e a srª comissária europeia para os Direitos Humanos (!) anunciou um inquérito para apurar eventuais sintomas de «racismo» ou de «intolerância religiosa» nos «cartoons» profanos. Eis aonde se chega na estrada do politicamente correcto: a intolerância religiosa não é de quem quer proibir os «cartoons», mas de quem os publica!
A Dinamarca não tem petróleo, mas é um dos países mais civilizados do mundo: tem um verdadeiro Estado Social, uma sociedade aberta que pratica a igualdade de direitos a todos os níveis, respeita todas as crenças, protege todas as minorias, defende o cidadão contra os abusos do Estado e a liberdade contra os poderosos, socorre os doentes e os velhos, ajuda os desfavorecidos, acolhe os exilados, repudia as mordomias do poder, cobra impostos a todos os ricos, sem excepção, e distribui pelos pobres. A Arábia Saudita tem petróleo e pouco
mais: é um país onde as mulheres estão excluídas dos direitos, onde a lei e o Estado se confundem com a religião, onde uma oligarquia corrupta e ostentatória divide entre si o grosso das receitas do petróleo, onde uma polícia de costumes varre as ruas em busca de sinais de
«imoralidade» privada, onde os condenados são enforcados em praça pública, os ladrões decepados e as «adúlteras» apedrejadas em nome de um código moral escrito há quase seiscentos anos. E a Dinamarca tem de pedir desculpas à Arábia Saudita por ser como é e por acreditar nos valores em que acredita? Eu não teria escrito nem publicado «cartoons» a troçar com Maomé ou com a Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e a sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possam parecer. Mas no meu código de valores – que é o da liberdade – não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também têm a liberdade de existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. É essa a grande diferença: seguramente que vai haver quem pegue neste meu texto e o deite ao lixo, indignado. É o seu direito. Mas censurá-lo previamente, como alguns seguramente gostariam, isso não.
É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu – graças a Deus.
Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.

Apenas não concordo com a penúltima frase porque não me revejo nela. Nem poderia, visto não ter crença religiosa.

Comments ( 3 )

  1. ReplyJC Barros
    "(...)as «adúlteras» apedrejadas (...)"
    Apoiado! Apoiado!
  2. ReplyAnonymous
    Como é que alguém como este senhor,
    Famoso Miguel Sousa...
    pode falar em racismo,
    de intolerância religiosa,
    quando ele próprio é
    egoísta, racista,
    e intolerante.
    Leiam o que ele escreveu no Expresso.
    Depois não entendem a violência,
    as bombas.
    Leiam a violência da afirmação deste,
    que até escreve livros,
    e fala na TV,
    um facísta com ar cool.
    Enfim.
    Estou trantornado.

    "Deixei de acreditar que o Estado deva gastar os recursos dos contribuintes a tentar «reintegrar» as «minorias» instaladas na assistência pública, como os ciganos, os drogados, os artistas de várias especialidades ou os desempregados profissionais" Miguel Sousa Tavares, Expresso

    Quem serei,
    sou a vossa consciência,
    se a encontrarem...
  3. ReplyBrunoS
    Como é que alguém como este senhor, desconhecido anónimo, pode escrever...sobre o que quer que seja?
    Como pode acusar alguém de algo que eu desconheço (visto facísta não existir) baseando-se em inveja.

    Então diga-me que foi bem gasto o dinheiro do estado para formar aqueles belos rapazes. Que foram homens suficientes para matar um sem abrigo no Porto, apenas por ser diferente. Porque podiam. Mas agora não são homens suficientes para cumprirem a pena pelo crime de "homem" que cometeram.
    E quanto aos ciganos. Que não respeitam a sociedade em que vivem. E, no entanto, a sociedade tem de os respeitar. Quando a educação das crianças ciganas é deixar fazer o que lhes der na real gana. A educação passa, pois, por não educar.
    Nessa citação, esse caro senhor não disse para extraditar-mos ou fuzilar-mos esses senhores. Mas que o estado não tem que gastar o dinheiro em quem não respeita o estado.

    Caro anónimo:

    Fica portanto informado, que não existe facísmo mas sim fascismo.
    Que ninguém é egoista por expressar a sua opinião.

    Que tem razões, e muitas, para estar transtornado( e não trantornado). Pois intolerante sois vós...quem nem tomates teve para colocar o nome.

    PS- Obrigado ao autor do blog por este post. Porque deixei de ter o prazer de ler as crónicas desse senhor no Publico.