E não, não me enganei no título. O Avante já não é uma Festa. Já não me sento numa mesa de uma das inúmeras barracas de gastronomia nacional com um recheado prato de carnes várias na mão, entregue pelo senhor de camisa aberta e farto bigode que me diz “Camarada, que lhe saiba bem. Regue com bom vinho e goze a festa.”.
Já não acontecem coisas como uma que me aconteceu há precisamente 4 anos, quando na tarde de sábado, deitado na relva na companhia de uns amigos que foram comigo nesse ano, sou abordado por um homem na casa dos 30 e poucos anos, que me pede um minuto para que eu assine um manifesto pró-aborto. Sendo eu de esquerda (mas não-PCP nem apoiante de nenhum partido do panorama nacional, que fique claro) mas ainda assim contra o aborto livre (pelo menos para já, mas isso é pano para outras mangas que não as deste post), lá fiquei umas boas duas horas regadas de uma óptima disputa de argumentos e de uma ou outra cerveja que servia só mesmo para não deixar a garganta colar em seco. No fim, e quando tomamos noção do tempo, um aperto de mão, um cumprimento mútuo e a certeza que em mais lado nenhum aquela conversa teria aquele desnrolar e culminar.
Também já não vejo a Carvalhesa a ser dançada com o mesmo espírito que via. Empurrões despropositados, demasiadas garrafas de cerveja de litro “Sagres” compradas no mini-mercado junto à entrada do recinto.Lembro-me ainda de quando se chegava ao parque de campismo e imperava o silêncio. O primeiro que decidisse dar um berro, tocar num djambé, enfim… perturbar aquela paz de alma, era imediatamente convidado a saír do parque durante meia horinha para aclarar ideias e assentar energias. Este ano foi o fim da macacada. Qual festival, era tentar perceber qual dos putos se queria mostrar mais bebado para levar a bicicleta para casa. Não eram capazes de discernir a diferença entre o recinto da Festa e o recinto do descanso. Mas, de uma audiência habituada apenas e só a festivais, não podia esperar outra coisa… verdade seja dita.
O Avante não devia ser um festival, aliás, o Avante não nasceu para ser um festival. Nasceu para ser uma festa, uma celebração da harmonia entre culturas, uma alegria contagiante. Não nasceu para que se vendam mais bilhetes do que a quinta pode suportar. Não nasceu para que peçam a quem lá vai quatro euros e meio por três fatias minúsculas de salame e duas tiras de presunto. Não nasceu para que quando, por volta das duas da manhã e após o fabuloso concerto de Taraf de Haidouks no auditório “1º de Maio”, se pede um copo com água da torneira numa das barracas tradicionais, apenas e só para tirar o pó da boca enquanto se vai para a fila de 20 minutos comprar uma cerveja, se ouça a resposta “-O pré-pagamento é ali atrás.”.

Foram muitas situações que me fizeram dizer, ainda no domingo de manhã: “-O Avante já era. Não volto cá.”. Algumas prefiro nem contar detalhadamente aqui.

Curiosas são as reacções que já recolhi de quem lá foi, e que se dividem em dois grandes grupos:

  • Quem já lá vai há muitos anos e que ficou muito triste com o que viu.
  • Quem nunca lá tinha ido e achou o “festival” espectacular.
Em suma, se para o ano me disserem que havia um McDonalds ou um KFC (á là Paredes de Coura) já não ficarei assim tão espantado.
Salvam-se este ano as recordações da feira da ladra, das “Frigideiras” de Braga e da simpatia de quem as servia que conseguia fazer o tempo de espera parecer menos penoso (e que grande verde que lá havia!), dos Peatbog Faeries e de Taraf de Haidouks apesar do terrível som dos 10 minutos inciais que ameaçava destruír o concerto.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=dW_MgX2oZSc]

Comments ( 15 )

  1. ReplyJC Barros
    Pois eu era para ter ido pela primeira vez este ano e não fui. Tinha ideia de ir para o próximo mas com isto tudo fico na dúvida.
    O filme do Tubo já não está disponível.
  2. ReplyPaulo Costa
    Diz antes: "Ainda não está disponível."
    Fiz o upload mas está a demorar a ficar disponível para o público.
    Talvez quando voltar do café. :P
  3. ReplyJC Barros
    "O filme do Tubo ainda não está disponível."
    Ui...isso então só para hoje de madrugada. O último que lá meti demorou à volta de 12 horas a ficar disponível.
  4. ReplyTio Hermínio
    Aqui o Tio Hermínio é a favor duma lei anti-djambé...
    Ja o Avante com McDonalds era engraçado de ver... lol
  5. ReplyAnonymous
    sim?

    e o k tens a dizer a isto:

    http://kontratempos.blogspot.com/2006/09/as-farc-que-no-existiram-denncia-das.html

    VERGONHA!!!!
  6. ReplyPaulo Costa
    2º Parágrafo do texto:
    "Sendo eu de esquerda (mas não-PCP nem apoiante de nenhum partido do panorama nacional, que fique claro)"

    Mas custa assim tanto ler com olhos de quem quer ler o que eu escrevo?
  7. ReplyPaulo Costa
    E não vi lá nenhuma tenda das FARC. Não estou a dizer que não estaria lá, mas sinceramente não a vi, e andei bastante tempo pela zona de intervenção internacional.
  8. ReplyPaulo
    A festa do Avante se calhar nunca foi aquilo que se dizia por aí...
    Quando fui a primeira vez á festa, e já foi no inicio dos anos 90, ouvia falar em camaradagem, marisco quase de borla, charros a passar de mão em mão, miudas disponiveis e Pink Floyd (o mito de uma possivel actuação era tal que o até no blitz se escreveu sobre o assunto).
    A primeira memoria que tenho é de um individuo a "picar-se" enquanto montava a tenda dentro do recinto atrás do palco.
    Percebi rapidamente que não estava no paraíso que me tinham relatado.
    O Espadinha ficou só com a roupa do corpo quando lhe assaltaram a tenda ( o bom Espada esperava da parte de fora que, pensava ele, um casal terminasse de "dar uma").
    Depois de voltar á terra resolvi que se tinha feito tantos kms não podia deixar de gozar aquilo que de bom a festa me podia proporcionar, e o bom da festa é a parte cultural. Vi concertos fabulosos com o meu amigo Pirata, vi teatro, comprei roupa e vinil na feira da ladra, comi bem em alguns sitios, embora não fosse tão barato assim, e ouvi historias verdadeiras de "camaradas" velhinhos e sábios sobre o partido e também sobre a festa, e que em
    muitos aspectos diferiam totalmente daquelas que tinha ouvido aqui por Freamunde.
    O saldo final foi bastante positivo e, por isso, voltei no ano seguinte e no seguinte...
    O que se passa com o Avante, que parece estar desvirtuado se entendo as tuas palavras, muitos o apontam também em relação a Paredes de Coura e Outros grandes eventos ( Sebastianas incluidas). É talvez o preço a pagar pela adesão em massa de "povo" que antes não era visto por lá.
    Eu por mim penso em voltar, mesmo arriscando uma monumental desilusão, se o cartaz continuar a ter qualidade e for capaz de me surpreender!
  9. ReplyHC
    ainda ei de lá ir com a bandeira da monarquia...
  10. ReplyBarras
    looooool
  11. Replymitzrael
    Tenho mesmo pena de ver isto... fui lá no ano passado e confesso que gostei bastante, o suficiente para que este ano tenha ficado bastante triste por não ter conseguido ir...

    mas não és o primeiro a quem ouço comentários assim, desiludidos.
    è pena, porque o AVante, realemente, foi feito para ser uma festa, não um festival... o problema está mesmo na consciência de quem acha que tudo é sítio para jabardar...

    :)
  12. ReplyPaulo
    "Camarada hc vai com a bandeira da monarquia ou com qualquer outra... nada é mais "ofensivo" para um verdadeiro comuna que os anarquistas (ao contrário daquilo que alguns pensam)e eles andam por lá perfeitamente identificados e sem problemas (sem problemas para eles porque para quem passa por eles é impossivel não sentir náuseas)
  13. ReplyThin_icE
    oh Paulinho, mt bonito e o caralho, mas n te eskeças do meu champô :D
  14. ReplyPaulo Costa
    Não te preocupes. Até durmo com ele para não me esquecer :P
  15. ReplyThin_icE
    Seu porco...axo k já nem vou conseguir tocar nisso :D