As duas horas e meia na cabeleireira parecem ter tido bom resultado. Os poucos cabelos brancos que começam a aparecer já estão disfarçados, rejuvenescidos. A dona Anete também estava na cabeleireira. Afinal de contas o jantar é no restaurante caro, e um restaurante caro é forçosamente bom, coisa de gente fina.
O Zé da esquina não pode ir, certamente. Não é que até não conseguisse se não fizesse um esforço financeiro, mas o restaurante só aceita gente fina, gente que não pousa os cotovelos em cima da mesa.
O senhor Almeida já chegou a casa, está agora a escolher a camisa azul que melhor combina com as calças castanhas e os sapatos de 25 contos. Havia uns iguais numa outra loja perto de onde comprou os dele, mas custavam só 8 contos e por isso não deviam ser bons.
A camisa já está escolhida, a gravata vermelha também. O gel, abundante, prende o cabelo dando-lhe um ar saudável e de notável preocupação com a imagem. O relógio dourado fora prenda da esposa. E por sinal, hoje, mais do que nunca ficará a condizer com o cabelo disfarçado, rejuvenescido, dela.
O benjamim está a acabar de atar os cordões. Tão crescidinho que ele está… 9 aninhos, os dentinhos já a tremer para avisar que estão quase a dar lugar aos novos. A fada dos dentes é capaz de lhe deixar uma notinha debaixo da almofada assim que lhe caiam os primeiros… o benjamim da família tem ainda esperança que a fada dos dentes lhe telefone primeiro a avisar porque assim podia ouvir o novo toque de telemóvel do seu Nokia de 3ª geração.
A menina… a menina é um anjo. Todos dizem que parece uma adulta. 6 Aninhos e tão bem comportada. Os pais sabem o segredo: não a deixar fazer birra. Se ela quer o CD da Floribella, então terá o CD. Se ela quer o estojo de maquilhagem da Barbie, então ela terá o estojo de maquilhagem. Provavelmente não estará a brincar com ele mais do que 2 minutos e ficará esquecido no sótão, mas o que interessa é que assim fica caladinha. “Tão adulta” disse a dona Anete da última vez que a viu.
O carro está já fora da garagem. Tem quase 3 metros e meio de comprimento. Há quem diga que é muito grande para andar no dia-a-dia, mas foi um carro caro. É alemão e há poucos iguais. Apenas alguns dos que vão ao restaurante hoje também o têm. A esposa do senhor Almeida não anda nele. Ela faz várias viagens por dia à loja onde tem aqueles vestidos lindíssimos e de grande qualidade, qualidade essa que se paga obviamente, e por vezes tem mesmo de ir muito rapidamente à cabeleireira porque algumas gotas de chuva destruíram por completo o belo penteado que tinha lá feito durante a manhã. Por isso precisa também de um veículo, mas não um como o do marido. O do marido é só dele e por isso, quando ela fez os seus 40 anos, o senhor Almeida como prova de amor pelo seu casamento que dura há quase vinte, ofereceu-lhe um Jipe. Não foi demasiadamente caro, apenas o suficiente para que a qualidade seja indubitável.

À porta do restaurante já se encontra o senhor doutor Fonseca. O senhor doutor Fonseca é uma pessoa muito importante, tem várias ligações e conhecimentos com as pessoas importantes dos órgãos gestores da câmara municipal. O senhor Almeida não hesita em cumprimentar o senhor doutor Fonseca.
-Muito boa noite senhor doutor Fonseca, como se encontra?
-Ora boas noites senhor Almeida! Vou bem, muito obrigado, algo atarefado… mas não podia falhar este jantar de amigos!
-Imagino senhor doutor Fonseca, imagino! Um homem como o senhor doutor tem preocupações que chegue. Se eu que sou eu já as tenho que chegue…
-Anda inquietado senhor Almeida?
-Nada de preocupante, assuntos internos da minha empresa, mas facilmente se resolvem. Sabe como é… este governo corta-nos as pernas…
-Sim, sim, compreendo perfeitamente. E a sua esposa, está bem?
Na verdade, a esposa do senhor Almeida evitou o senhor doutor Fonseca. Não por ele, que até admira, mas pela sua esposa.
A esposa do senhor doutor Fonseca recusava sempre, durante as conversas que mantinham na espera da cabeleireira, dizer onde comprara aquele vestido fantástico que usara no casamento da filha do senhor doutor Valente, ou as jóias que ostentara no jantar de benevolência daquela associação de ajuda aos desalojados…
Não era inveja porque a mulher do senhor Almeida também tinha jóias, e de grande qualidade, e os seus vestidos eram lindíssimos e de altíssima qualidade! Bastava passar na montra da loja de maior qualidade do concelho para ver a etiqueta e comprovar isso mesmo. Era simplesmente pelo facto de a esposa do senhor doutor Fonseca se recusar a dar muita confiança… e logo quando a esposa do senhor Almeida tinha na garganta atravessada aquela vontade de saber a verdade sobre os boatos acerca da dona Anete e do senhor doutor Valente… seriam verdade?
Sabia-se que o senhor doutor Valente dava as suas escapadelas. Tantas viagens a Cuba, Brasil, e outros destinos idênticos eram de negócios… mas há sempre a pulga atrás da orelha e as mulheres têm o 6º sentido extremamente apurado. Mas com a dona Anete?

Mas o jantar estava a começar. As conversas ainda não fluíam muito… o vinho não parecia ser da melhor qualidade, mas com o chegar dos pratos principais a coisa melhoraria com certeza. Os miúdos esses andavam em correria louca à volta das mesas, roçando nas toalhas e fazendo abanar os copos enquanto puxavam pelas calças dos serventes para pedir uma chiclete.

O jantar decorrera muito bem. O vinho, afinal, era realmente de qualidade. As conversas fluíam naturalmente e as vozes já eram bem audíveis. A única coisa que destoava ali era a presença de dois casais que jantavam umas quantas mesas ao lado. Não se tinham feito ouvir mas a sua presença era incomodativa. Não tinham roupa de qualidade. Um deles tinha uma camisola verde escura e o outro usava uma camisola azul escura. Elas, ambas, estavam de camisa. Todos usavam calças de ganga e sapatilhas.
A indumentária não seria grande problema não fosse não ostentar um símbolo de qualidade evidente. E num jantar de gente tão fina, a verdadeira nata concelhia, porque deixaram os donos do restaurante, avisados com antecedência do evento que lá se realizaria, entrar aquelas quatro pessoas? Absurdo. Não se repetiria certamente, nem que o local do jantar fosse mudado dali para outro local de qualidade. Como era possível? Ainda por cima aqueles quatro, ali em conversa muda, nada preocupados em mostrar a sua qualidade de vida, tinham a falta de etiqueta necessária para descaradamente pousar os cotovelos na mesa.

____
Qualquer ficção com a semelhança é pura realidade.

Comments ( 12 )

  1. Replygoogle-eyed
    É tão giro ser do concelho de Paços de Ferreira!!!
  2. Replygoogle-eyed
    Há!!!, lembrei-me de um texto antigo que tenho, que vou publica-lo no blog, vais gostar!
  3. ReplyPaulo Costa
    Ainda tenho que ganhar coragem para acabar de ler o último que lá tens do Velvet Goldmine. lol
    Gajo de fazer textos grandes és tu, mas parece-me bem! :D
  4. ReplyAnonymous
    adoro os teu post mas este nao vou ler lol
    so se imprmir e q pra ler aqui
  5. ReplyBarras
    Muito real este texto!!!
    Foi preciso ganhar balanço para o ler, mas valeu a pena! ;)
  6. ReplyBarras
    Muito real este texto!!!
    Foi preciso ganhar balanço para o ler, mas valeu a pena! ;)
  7. ReplyEstaline
    só semelhanças... só semelhanças... Adoro o dia 12 de Dezembro... ;)
  8. ReplyPaulo Costa
    estaline, não fiz este post por causa do jantar do dia 12 de Dezembro. Já andava para o fazer há bastante tempo.
    Que ter estado no tal jantar (desta vez do lado dos que só comem e têm tempo para olhar à volta e apreciar) deu um "empurrãozinho" não nego, mas não foi o motivo da escrita do texto.
  9. Replyeuseinadar
    Muito bem! Mas na realidade, os primeiros dentes mudam, geralmente, aos 6 anos, não aos 9. Se calhar era tão novo rico que tinha dentes-de-leite de marca, talvez também alemães, de grande qualidade. De resto, 5 estrelas.
  10. ReplyPaulo Costa
    Ahah, realmente aos 9 já se deviam ter mudado alguns... fiz mal as contas. E, obrigado :)
  11. ReplyGil Hagenlocher
    nao tem nd haver com o post mas acho que vais adorar paulo costa
    abraço continua http://www.youtube.com/watch?v=bCmFHVtnNo0&eurl=
  12. ReplyJC Barros
    Nos poucos minutos do único episódio de "Pedro, o milionário" que eu cheguei a ver a senhora das etiquetas dizia que não se devem pousar os cotovelos na mesa.