No último sábado combinei uma jantarada com esta desgraçada, para matar saudades de uns meses sem nos encontrarmos e para eu provar as francesinhas do Fase, junto a Santa Catarina no Porto (e meu deus, que maravilha, quase melhores que as do Teles às 4 da manhã), e depois o plano era passar pelo “O meu Mercedes é maior que o teu” na Ribeira para um concerto dos X-Wife.
O jantar até nem atrasou muito mas depois, enquanto juntamos o resto do pessoal que também ia ao concerto e pegamos nos carros para ir até ao parque do Mercado as horas voaram e chegamos à porta do Mercedes para encontrar aquilo apinhado… estavam naquele preciso momento a meter um aviso na porta: “Concerto extra, amanhã.”
Pronto, estava visto que ainda não era desta que ia ver os X-Wife ao vivo… mas já que estavamos na Ribeira lembrei-me de que não era mal visto passar no Pinguim. Sempre bom ambiente, boas conversas, e já tinha mesmo saudades de lá passar e de cumprimentar o Paulo, o dono que não consegue passar um único segundo quieto e que faz cansar só de o ver atrás do balcão.
Estava cheio, como é normal, mas o andar de baixo nem por isso. Estavam ainda a abrir a porta para uma noite de poesia. Ok, X-Wife… poesia… uma mudança um bocadinho brusca de planos, mas já tanto me fazia.
Lembro-me de alguns dos poemas, de outros nem por isso. Mas um em partícular ficou-me gravado (e à Rita, pelos vistos, também): o pranto por Ignacio Sánchez Mejías de Garcia Lorca.
Não sou adepto de poesia, admito. Gosto de algumas coisas, acho que o “Pauis” de Pessoa foi das coisas mais impressionantes que jamais foram escritas (embora tenha falhado redondamente na tentativa de criação de uma corrente), mas sou muito mais adepto da prosa.
No entanto há poesia que não me deixa indiferente. E quando bem declamada ganha uma força que não é possível de obter pela simples leitura numa folha branca.
E se nem sempre a poesia no sábado foi bem declamada, este pranto foi excelente. A pronúncia talvez tenha sido o ponto mais “estranho” (“às chinco da tarde” não soa lá muito bem), mas que o poema ganhou uma alma com aquela mulher a declamar, isso ganhou.

A CAPTURA E A MORTE

Às cinco horas da tarde.
Eram as cinco em ponto da tarde.
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco horas da tarde.
Uma ceira de cal já preparada
às cinco horas da tarde.
Tudo o mais era morte, apenas morte
às cinco horas da tarde.

O vento levou os algodões
às cinco horas da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco horas da tarde.
Já lutam a pomba e o leopardo
às cinco horas da tarde.
E uma coxa com um chifre desolado
às cinco horas da tarde.
Começaram os acordes de bordão
às cinco horas da tarde.
Os sinos de arsénico e o fumo
às cinco horas da tarde.
Pelas esquinas grupos de silêncio
às cinco horas da tarde.
E o touro sozinho coração acima!
às cinco horas da tarde.
Quando o suor de neve foi chegando
às cinco horas da tarde,
quando a praça se cobriu de iodo
às cinco horas da tarde,
a morte pôs ovos na ferida
às cinco horas da tarde.
Às cinco horas da tarde.
Às cinco horas em ponto da tarde.

Um ataúde com rodas é a cama
às cinco horas da tarde.
Ossos e flautas soam em seus ouvidos
às cinco horas da tarde.
O touro já mugia por sua fronte
às cinco horas da tarde.
Irisava-se o quarto de agonia
às cinco horas da tarde.
A gangrena já vem lá ao longe
às cinco horas da tarde.
Trompa de lírio pelas verdes virilhas
às cinco horas da tarde.
As feridas queimavam como sóis
às cinco horas da tarde,
e a multidão quebrava as janelas
às cinco horas da tarde.
Ai que terríveis cinco da tarde!
Eram as cinco em todos os relógios!
Eram as cinco em sombra da tarde!


Comments ( 3 )

  1. ReplyAndré Lamelas
    ainda assim o concerto dos x-wife foi boa cena. foi pena não teres conseguido entrar pah. queria matar saudades tuas. :(
  2. ReplyPaulo Costa
    Ainda estou à espera que marques o café com a outra cambada de chupistas e me avises da data :P
  3. Reply[r]
    :)