Ana Cristina Leonardo publicou no expresso um artigo fabuloso e do qual quero citar algumas passagens:


Nem tudo era mau
Não se pense que tudo era mau. Até final dos anos 60, Portugal manteve-se, em muitos aspectos, na «pole position» dos países europeus ocidentais (ver António Barreto, “Mudança Social em Portugal: 1960-2000”, in “Portugal Contemporâneo”, coordenação de António Costa Pinto, Dom Quixote, 2004). Assim: era o único império colonial sobrevivente; podia orgulhar-se do ditador com mais anos no poder; apresentava as mais altas taxas de analfabetismo e mortalidade infantil; o menor número de médicos e enfermeiros por habitante; o mais baixo rendimento por habitante; a menor produtividade no trabalho; o menor número de estudantes no ensino básico e superior; o menor número de pessoas abrangidas pelos sistemas de segurança social, a menor industrialização e a maior população agrícola. No fundo, no fundo, números à parte, tratava-se de um paraíso verde. Além das paisagens bucólicas e das viúvas de portentos buços, havia Fátima, havia fado e havia futebol. E no que toca a futebol, Eusébio era o mais que tudo.

Em época de censura
Chegamos assim à parte que está mesmo, mesmo, fora de moda: a censura e a polícia política do regime. Em entrevista a António Ferro, Dezembro de 1932, a propósito dos boatos que punham em causa o bom-nome da polícia, Salazar explicara-se bem: “(…) quero informá-lo de que se chegou à conclusão de que as pessoas maltratadas eram sempre, ou quase sempre, temíveis bombistas, que se recusavam a confessar, apesar de todas as habilidades da polícia, onde tinham escondido as suas armas criminosas e mortais”. Linhas à frente, surge a prova mil vezes repetida sobre a brandura dos meios e a rectidão evidente dos fins: “Eu pergunto a mim próprio (…) se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras”. E nesta “meia dúzia de safanões” se fundaria o mito urbano que continua a rever e a absolver a tortura, desrespeitando os mortos com nome próprio.
Quanto à censura (uma prática que, em Portugal, verdade seja dita, recua aos tempos da Inquisição praticamente sem interrupções), prévia e de lápis azul em riste, no caso da imprensa, preferia a apreensão ulterior quando se tratava de livros. Segundo a Comissão do Livro Negro sobre o Fascismo, o regime de Salazar/Caetano proibiu cerca de 3300 obras e até o velho Aquilino Ribeiro foi alvo de um processo-crime, pelo crime de ter escrito “Quando os Lobos Uivam”. O Secretariado Nacional de Informação (SNI) mostrava-se quase sempre de uma eficácia imbatível: em 1965, em apenas quatro dias, apreendia 70 mil títulos à Europa-América, em dois anos subtraía à Seara Nova milhares de contos de livros; quanto à editora Minotauro, era simplesmente encerrada.

Foi por isso com imenso prazer que hoje pela manhã fui assistir ao lançamento de um livro de poesia cujo autor teria visto a sua obra censurada no tempo do regime. António Taipa, Rodela para os amigos de Freamunde, é um poeta popular com as suas quadras e sonetos sempre repletas de uma simplicidade e astúcia que ao longo dos anos lhe foram valendo o reconhecimento do povo.
Assumido comunista, crítico feroz do regime, trabalhador humilde, e como se pode ler na contracapa do “Solar dos Oprimidos”: “Orgulha-se da sua origem e não esconde as suas limitações académicas.”.

Freamunde, outrora terra de cultura, reconhecidamente esquerdista, de lutadores contra o regime, foi perdendo as suas características. É hoje uma cidade descaracterizada excepto pelo seu povo ainda bairrista. Pode-se argumentar que o tempo apaga vestígios, mas a tradição de cultura que outrora ostentava não soube ser preservada. Hoje temos o Grupo Teatral Freamundense que tenta, felizmente, retomar um rumo perdido há uns anos, o Grupo Pedaços de Nós, também com especial incidência na representação em palco, o Grupo de Castanholas de Freamunde que começa a ter alguma visibilidade, a Banda de Freamunde e o Ensemble Vocal.
E fora isso? O que temos?
As actividades culturais destes grupos são escassas, compreende-se o porquê: tempo, apoios.. tudo escasseia. A vontade estará lá mas quando essa vontade permite, por vezes com enorme esforço, promover um espectáculo, uma actividade, qual o retorno? Não são raras as vezes em que o retorno é pouco mais que um espaço vazio, cadeiras desocupadas.
É esse o espírito de qual Freamunde se orgulhava?

E foi por isso que hoje fiquei extremamente feliz ao ver a Associação de Socorros Mútuos repleta de gente. Largas dezenas de pessoas que não foram ver um recital de poesia de um famoso e consagrado. Não! foram ver o nosso Rodela de Freamunde, dar-lhe alento para continuar a escrever, foram celebrar as suas quadras e os seus sonetos.

E foi bonito também de ver que o Rodela estava sentado ao lado do Presidente da Junta, tantas vezes zangados, tantas vezes de costas voltadas e em barricadas opostas. É bom de ver na ficha técnica do livro hoje lançado o apoio da nossa Junta de Freguesia. Mas não consigo perceber o porquê de esta não ter sido uma das iniciativas que a Junta anunciou no cartaz do programa de comemorações do 25 de Abril.
Porque teria um significado muito forte para o próprio autor, porque seria um sinal de reconhecimento da Junta, porque assim não ficaria eu de boca aberta com a pobreza franciscana com que o cartaz foi apresentado aos Freamundenses:

Um concerto da Banda de Freamunde na véspera e, pasmem-se, o lançamento de “33 bombas” pelo meio dia. Foi isto que o 25 de Abril mereceu para quem tem a obrigação de o fazer relembrar.
33 “bombas”.

Porque o 25 de Abril é uma data, apenas e só uma data, mas a data que simboliza a liberdade, o fim da escuridão cultural, a emancipação de Portugal como país democrático no seu verdadeiro sentido, por tudo isto e muito mais o 25 de Abril não merece ser tratado assim, com o “dois foguetes e povo na rua”. Não merece que o celebrem como que com vergonha de o fazer. É dia de gostar do país, do povo e da liberdade.

Povo de Abril! Sai à rua
a vinte e três de Fevereiro.
Faz serenatas à Lua,
recorda o cancioneiro.

Não rezes meu povo, canta!
Porque que canta a razão
traz o Zeca na garganta
e o credo no coração.

Abril tempo de fartura,
funeral da ditadura,
Zeca Afonso e liberdade.

Mas disto já nada resta,
só a viola se presta
p’ra me matar a saudade.

Rodela, 23.02.1996


Comments ( 4 )

  1. Replyrevolta dos capoes
    ..é por estas e por outras que nasceu a revolta...

    Freamunde está a desaparecer...
  2. ReplyJC Barros
    Mas o que vem a ser isto?! Posts destes? E depois não querem que a juventude ande no revirar! Que almas simples pretende o cavalheiro desencaminhar com esta conversa? Vamos lá a retirar isto e já agora identifique-se e acompanhe-me que me parece que há alguém a precisar de 33 dúzias de safanões.
  3. ReplyJC Barros
    Falta isto " :p " no post de cima não vá haver confusões.
  4. Replyguga
    O NOSSO CARTAZ DAS COMEMORAÇOES E MM UMA VERGONHA MAS PIOR KE ISSO SO MM NAO TER HAVIDO A TRADICIONAL MUSICA DO 25 DE ABRIL KE EU ME ACOSTUMEI DURANTE ESTES ANOS TODOS,ERA BONITO SAIR A RUA E OUVIR O ZECA A ECOAR POR TODO O CENTRO DE FREAMUNDE.SERÁ KE POR O NOSSO SOUSA DO KIOSKE TER FALECIDO MAIS NINGUEM SE ATREVERA A FAZER O MM KE ELE FAZIA?.....PAULINHO N SEJAS MAUZINHO :)