Politiquices

Nós: eu, tu, todos temos responsabilidade

Ainda que em pequena escala há textos nas redes sociais que partem de quem não está convencido de que temos a obrigação – e muito mais do que a simples obrigação moral – de ajudar de todas as formas possíveis os refugiados que estão a tentar entrar na Europa em números aterradores. Todos nós temos alguém na lista de contactos do nosso facebook ou twitter que contestou ou pelo menos questionou a ajuda a quem está a tentar fugir de uma guerra.

Se todos têm o direito de expressar a sua opinião isso não invalida que a mesma parta de pressupostos errados e que devam ser expostos. O mais comum dos argumentos é : “temos tantos desempregados, velhos sem dinheiro para medicamentos, gente a emigrar, a esses ninguém ajuda porque é que agora vamos gastar milhões a ajudar esta gente que não conhecemos?

É simples: porque temos culpa do que está a acontecer. E porque ajudar os nossos desempregado, os nossos idosos e ajudar sob que forma for possível os refugiados não são eventos mutuamente exclusivos.

Todos nós pertencemos a uma União Europeia que passou décadas a virar a cara a um problema que foi ajudando a criar em conjunto com Rússia, China e EUA. Vivemos décadas a parasitar o médio-oriente e o norte de África num sistema de usurpação de recursos naturais em troca de uma falsa estabilidade imposta à força de regimes ditatoriais. Todos nós vivemos numa Europa que vive e convive com uma Turquia que mata os Curdos enquanto vende armas ao EI. Vivemos numa Europa onde o primeiro-ministro Húngaro diz impunemente em conferência de imprensa – lado a lado com o presidente do parlamento europeu – que o problema dos milhares de refugiados é um problema de outros enquanto tenta levar milhares para campos de concentração! Vivemos numa Europa que apoiou a “Primavera Árabe” que foi vantajosa apenas e só para grupos extremistas e para o Irão e causou um reajuste nada benéfico a toda a região.

Portanto sim, a culpa é nossa que vivemos décadas numa Europa que ajudou a esmagar toda uma região sabendo do problema que estava a causar.

E se sim, devemos atribuir responsabilidades a quem as terá pelo estado a que deixamos chegar o país e os seu reais milhão e meio de desempregados, a quem retira os apoios aos nossos idosos, aos nossos estudantes, aos nossos jovens que se sentem empurrados para fora do país. E sim, devemos exigir melhores condições, um melhor futuro para nós e para os nossos, mas não podemos nunca usar como desculpa o nosso umbigo para fugir à responsabilidade que é muito mais do que moral que temos para ajudar quem está numa situação extrema de ter que arriscar a vida de filhos recém-nascidos em travessias do Mediterrâneo.

Porque não, os refugiados não vêm para cá para nos roubar o nosso emprego ou para viverem às nossas custas. Os refugiados vêm para cá para fugir com a sua família de países que estão devastados por uma guerra sem fim à vista, para fugir das mortes, das mutilações, do sofrimento que nenhum dos nossos umbigos conhece.

 

Sigamos, por uma vez, o exemplo do governo alemão que eu e tantos criticamos ao longo dos últimos penosos anos para Portugal, e que todos tenhamos a noção que o problema não é do nosso vizinho, é nosso. O problema não vai chegar em breve, já chegou. E se havia muito a fazer para ser evitado, já vamos tarde. Agora é hora de ajudar quem precisa, da forma que for possível, e depois de terminado este fluxo de entrada de refugiados, então sim será altura de medir e pesar os próximos passos. De tomar outro caminho para evitar erros iguais aos que todos construímos durante as últimas décadas.

 

Para ajudar podem consultar informação na página da agência para apoio aos refugiados da ONU, consultar listas criadas por meios noticiosos como esta do Observador  ou esta no Mashable que contem instruções para que qualquer gesto conte.

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13

13 meses depois voltei aqui. E o post anterior, de Agosto de 2014 voltou a ser relevante.

Só ainda não percebi se fiz as contas por baixo ou não.